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Sobreviver, Conviver, Viver. As experiências do franquismo no campo

16/03/2010

A génese do livro está na tese doutoral da autora, defendida em 2006 e que estudava os comportamentos da sociedade rural galega entre 1936 e 1960, oscilantes “entre a resistencia e a adaptación”. No caso do ensaio que nos ocupa, Cabana deixa de lado a oposição para se centrar nas condutas adaptativas, com o intuito de construir um conhecimento historiográfico crítico do período, que ajude a entender e explicar o assentamento e a consolidação do franquismo no espaço rural, partindo não já da repressão, brutal desde julho de 1936, mas do consentimento (face ao “consenso”, mais próprio das democracias), visando a descrição dos mecanismos de adaptação da gente comum a uma situação de violência quotidiana.

Ana Cabana Iglesia: Xente de orde. O consentimento cara ao franquismo en Galicia. tresCtres, 2009

Ao longo do ensaio, Cabana faz questão na complexidade das atitudes individuais a respeito da violência franquista: as respostas da gente foram complexas, enquadrando três formas de adaptação: “colaboração-realismo”, “colaboração-conveniência” e  “colaboração-providência”. Estas formas de colaboração variaram com o passar do tempo, mesmo num contexto individual. Neste sentido, a autora é coerente com uma noção da historiografia crítica, que dá bem conta da multicausalidade e da complexidade dos factos históricos por meio, precisamente, de uma ótica não reducionista e não maniqueísta. Por outro lado,esta visão é propriamente histórica, porquanto evolutiva.

O livro combate também tópicos assentados sobre o franquismo, ideias comuns sobre um período onde só parece haver espaço para falar de bons e ruins, de um bando vencedor e um bando vencido. Mas na verdade o comum na Galiza foi achar-se numa “zona ambígua”, onde cada quem buscava uma “volta à normalidade” e as suas rotinas, rejeitando a “política” e ocupando-se apenas de trabalhar. Por isso, a oposição não adquiriu quase nunca uma dimensão coletiva, a exceção da guerrilha, um fenómeno isolado e pouco compreendido no rural.

Ora bem, a autora não está a dizer que no rural não houvesse indignação e descontentamento, mas sim que estes foram canalizados num nível individual, sem ser ligados a uma análise estrutural, incapacitando as pessoas para a crítica das estruturas culpáveis da repressão. As mortes violentas, a corrução ou a fome eram vistas como “desgraças”, que tentavam ser evitadas por meio de estratégias individuais, condenando a injustiça concreta, mas sem passar para uma esfera mais ampla, deixando assim livre de crítica ao ditador e a todas aquelas pessoas que medraram sob a ditadura.

Xente de Orde é, pois, um ensaio histórico muito legível, porquanto não subordina o ritmo narrativo à potência analítica, sendo de especial interesse e funcionalidade a presença dos testemunhos orais e os escritos governativos. Essa aproximação empírica tem ainda maior valor, dada a focagem comparatista aplicada à vivência do franquismo no rural, onde destacam as semelhanças e as diferenças do contexto galego a respeito do espanhol, alemao, italiano ou do francês. A autora é especialmente crítica com uma história das primeiras décadas do franquismo que apresenta o período como uma “parêntese” ou como uma “culpa coletiva”, fazendo uso dos debates historiográficos havidos na Alemanha ou na Itália a respeito da relação entre o fascismo e a vida quotidiana, para compreender melhor porque o franquismo se consolidou no rural e sobrevivendo a um contexto interno e externo cambiante.

Longe de ser um ensaio teórico dirigido apenas a um público muito concreto, Xente de Orde é um exercício inteligente e crítico de um período da nossa história, que atende à vida quotidiana da gente comum, obviando os tópicos batidos quer sobre o franquismo quer sobre as atitudes da população no rural, para aprofundar na compreensão e interpretação, da mão de uma perspetiva comparada, que ensina a pobreza das explicações monocausais e reducionistas as quais não podem dar conta das razões da consolidação do franquismo. A ditadura, mesmo sendo certo que se impôs pela violência, com o decorrer do tempo foi capaz de tecer estratégias que procuravam se não o consenso, sim o consentimento da maior parte da população, o qual é sempre preciso relembrar, sobretudo na hora de explicar um fenómeno complexo quanto foi o franquismo.

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