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Adaptar-se ou morrer

04/08/2010

No nosso país são poucos os ensaios de tema político que não estejam destinados a um auditório puramente militante ou que não recorram à habitual formula do livro de entrevistas. Aliás, se tivermos em conta a escassa presença editorial do ensaio galego (a exceção do Dia das Letras e Jacobeu), a publicação do Premio Ramón Piñeiro 2008 representa em si mesma uma ótima notícia.

Xosé Ramón Quintana Garrido, Un longo e tortuoso camiño. Adaptación, crise e cambio no BNG. 1971-2009. Galaxia, 2010.

Em palavras do autor (página 10),  “o principal obxectivo desta obra é dar conta de todo este processo de adaptación, crise e cambio acontecido no BNG”. Portanto, não é esta uma história do nacionalismo galego, nem sequer uma história do BNG in toto. De facto, o autor não pode nem deseja esgotar a matéria tratada. Quintana chega a afirmar explicitamente no prólogo que o ensaio é “tan só un libro, non catro ou cinco”. Consequentemente (e isto é já um aviso) muitas das possíveis vias de investigação do nacionalismo ficam fora da focagem e do interesse do presente livro. De resto, era inevitável que assim fosse, visto que a história política recente deste País não pode ser resumida na história do nacionalismo galego, nem a história do nacionalismo político é só a história do Bloque Nacionalista Galego.

A derrota de 2009, em grande parte inesperada para o BNG, paralisou a saída do livro sem que se alterasse, porém, o esquema ou a hipôtese central manejada no livro. A perda de um escano impediu a consolidação das politicas emprendidas durante o Bipartido, aguçando ainda mais uma “crise de liderado, de discurso e proxecto e de organización”, na qual o liderado de Guilherme Vázquez seria apenas um interim ou um adiamento dessa crise.

Para Quintana, a defecção do eleitorado tradicional e a irrupção na campanha eleitoral dos meios direitistas são em certa medida as principais causas da derrota do BNG; no epílogo faz-se fincapé em que o principal problema do BNG é a incapacidade continuada dos seus quadros para modernizarem práticas, estruturas e discursos, isto é, para adaptarem uma fronte de partidos nacionalistas nascida ao abrigo da pós-transição a um contexto de governação global e de políticas socialdemocratas, onde um partido, a UPG, já não parece ter muito espaço político. Afinal, um fica com a sensação de que o dilema do BNG estaria em “adaptar-se ou morrer”, como se a única deriva natural de um partido político “moderno” fosse ser un partido “catch-all”, “gerador de consensos”, isto é, un partido “prágmático”, flexível como o despedimento.

Seja como for, mais além da visão da política, do nacionalismo ou do BNG que possa ter o autor, acho que um dos méritos da sua obra é a combinação da ótica histórica com a politológica; além disso, o livro oferece uma variedade de fontes, como por exemplo a literatura politológica e os blogues, os programas políticos e os artigos jornalísticos. Parece-me muito interessante a crítica do escasso peso concedido à militância ou a escassa autonomia financeira do BNG, bem como crítica da idêntica obsessão manifestada por “radicais” e “moderados” por ocuparem a sua quota de poder, resultando na crise atual do “BNG organização” e do “BNG afiliados”, vencidos por um “BNG poder” redimensionado e sem sustento real, do qual o fim de Vieiros ou a crítica situação d’A Nosa Terra se calhar poderiam ser bons exemplos.

O livro oscila entre a narração jornalística e a análise politológica, entre a simples descrição de uns factos e uma crítica política, de luita intrapartidária, que por vezes parece ser um ajuste de contas com a UPG ou uma elegia de figuras outsiders do BNG, como Camilo Nogueira.

Tenho para mim que este longo e tortuoso caminho não vai surpreender muito nem pela sua análise nem pola sua interpretação do devir do BNG e que agradará a uns como incomodorá a outros, com independência do valor que o livro possa como síntese explicativa, nomeadamente dos últimos cinco anos da organização nacionalista.

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