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Defendermos a Terra junto a quem a trabalha

29/09/2011

[Resenha de Arredismo e tradiçom. O campesinado galego face a modernizaçom. Escola Popular Galega, 2011]

Pensarmos hoje a Galiza, defendermos a Terra de forma consciente e organizada, exige uma reflexão de caráter histórico sobre o nosso passado rural, mas também exige um exercício crítico com o relacionamento entre o arredismo e a nossa tradição agrária. Essa é a tese do livro recém editado pela Escola Popular Galega, onde se propõe um “razoamento sensato, modesto e contingente sobre a nossa rurália, tam vindicativo como crítico”, animado por uma sensibilidade “conservadora”, isto é, respeitosa da tradição secular do campo galego.

Toda sociedade conserva e transmite os conhecimentos considerados socialmente valiosos, para reproduzi-los e conservá-los através da educação. Na Galiza, infelizmente, perdemos tempo atrás essa capacidade. Por isso, nesta “Galiza da conurbação” não admira a marginalização crescente de qualquer projeto contrário aos valores hegemónicos do progresso material ilimitado e da democracia do consumo.

No entanto, se a EPG reclama a revisão do relacionamento entre o movimento arredista e a tradição agrária não é para elaborar mais um revival passadista nem se tenciona idealizar as condições de vida na Galiza do Ancien Régime. O intuito da EPG é vindicar essencialmente o património histórico, fundamentalmente vencelhado à terra, e que hoje deixamos esmorecer nas aldeias, para libertar-nos dos preconceitos urbanos e assentar nos cimentos rurais as bases de um território articulado, com relações humanas plenas e criadoras de cultura. A reconsideração das relações entre tradição e arredismo significa, pois, valorizarmos (e utilizarmos) a resistência histórica do campesinado (a épica campesina) contra a modernização capitalista, contra o estado liberal e em definitivo, contra um modelo de sociedade urbana que equipara o sujeito político ao cidadão e que mesmo hoje não equiparou ainda os direitos nem as obrigações dos e das habitantes do rural e da cidade.

Finalmente, e esta é uma lição importante do livro, dita quase que de passagem, o nosso presente de lutas marginalizadas é o resultado do ataque frontal da modernidade capitalista contra as nossas comunidades labregas. Por isso, esta outra “rebelião conservadora” contra esta modernidade voraz que se devora a si própria, necessita do rural, necessita da dignificação da sua tradição expressada no cooperativismo das contra-jeiras, na noção de “bem limitado” ou nas suas práticas de autogoverno assemblear. Tal vez esses “costumes em comum”, que diria Thompson e que um dia equiparámos com atraso e miséria, possam ensinar-nos alguma coisa a nós, pailões e pailãs da cidade.

[Texto publicado no número 106 do jornal Novas da Galiza]

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