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O primeiro Gramsci

11/10/2011

Depois da edição dos artigos de crítica teatral, Xesús González Gómez edita com Laiovento uma antologia dos escritos juvenis de Gramsci, isto é, daqueles textos jornalísticos escritos entre 1914-1918, num contexto marcado pela Guerra em Europa e pelo desenvolvimento revolucionário em Rússia, que põe em andamento a queda definitiva do Ancien Régime (Arno J. Mayer) e o advento de uma política de massas.

Escritos de mocidade (1914-1918). Antonio Gramsci. Trad. e ed. de Xesús González Gómez. Laiovento, 2011.

No alvor do século XX, um «século curto», no dizer de Hobsbawn, os textos de Gramsci tratam na sua maior parte das vicissitudes do processo revolucionário russo, com as lutas entre bolxeviques e esseritas, entre o proletariado e a burguesia, das repercussões desse processo no agir do proletariado italiano e especialmente turinês, bem como da crítica da literatura reacionária de matriz francesa, a «questão nacional» ou a análise da cultura popular.

O presente livro consta de uma apresentação, isto é, um breve estudo dos artigos selecionados, uma sucinta biografia de Gramsci, além da escolma de artigos, uma bibliografia essencial e umas notas de rodapé muito didáticas. Nessas notas introdutórias, destaca a divisão que faz Xesús González Gómez de toda a obra de Gramsci em quatro fases bastante nítidas, chanços na sua evolução pessoal e ideológica, cada vez mais assentada na «praxe» revolucionária, como o próprio Gramsci denominou a sua filosofia.

Os textos do jovem Gramsci representariam, pois, a primeira fase do seu pensamento, com uma progressiva implicação política e pessoal nos ambientes proletários de Turim, afastando-se cada vez mais da Universidade (Gramsci não finaliza o seu curso de Filologia) e do idealismo de matriz croceana, que substitui pelo materialismo e a crítica dialética do marxismo, apreendidos através das monografias francesas.

Certamente, estes quatros anos representaram para Gramsci primeiro uma crise no pessoal (depois de grandes sacrifícios pessoais para aceder ao ensino superior, Gramsci abandona a universidade), de passagem do sardismo para o internacionalismo operário, e enfim de uma crescente consciencialização política, começando em 1913 da simples militância até o desempenho em 1918, mesmo que fosse de forma provisória, do cargo de secretário do Partido da seção turinesa.

A leitora, o leitor, vai encontrar uma escolma de textos jornalísticos, nascidos ao calor do debate diário, da confrontação ideológica com a prensa burguesa, textos de caráter efémero para Gramsci, mas que hoje, quase cem anos depois, destacam pela sua frescura e surpreendem pela sua lucidez dos seus vinte e tal anos, apesar das contradições que se apreciam entre diferentes artigos, por exemplo sobre o papel de Lenine e que no fundo demonstram a evolução do seu pensamento em função das informações que iam chegando da Rússia.

Como nos ensinou o feminismo, o pessoal é político (Kate Millet) e ao avesso. Os textos do jovem Gramsci não são alheios à tragédia da guerra nem tampouco, é claro, ao vasto impacte da Revolução rusa nas sociedades europeias em geral e na sociedade italiana em particular, onde o Biénio Vermelho de 1919-1920 será mais uma tentativa revolucionária no ocidente. Mas antes de chegar à ocupação das fábricas em Turim, Gramsci começou a elaboração do que ele denominaria «Filosofia da praxe», uma forma do marxismo, expressão da consciência de classe de um proletariado sempre em mudança, sob a orientação do «intelectual orgânico». Nesta sentido é que podemos ver nos escritos de mocidade a base de tudo o mais.

Entre 1914 e 1918, Gramsci esforça-se por subir o nível cultural das massas proletárias, apostando no caráter revolucionário e denunciando o reformismo e o pactismo com a burguesia, promovendo uma nova cultura, um novo consenso hegemónico. Em definitiva, estes escritos do jovem militante que era Gramsci nesses anos anunciam o que será o Gramsci das seguintes fases: não apenas o Gramsci estudioso da cultura popular, mas o Gramsci dos conselhos turineses, do Ordine Nuovo e do PCI, o Gramsci da hegemonia, da «guerra de posições», enfim, o Gramsci da praxe revolucionária e do Estado proletário subsumido na sociedade civil… Todos os temas futuros da obra gramsciana estão já nestes artigos, mesmo que seja de jeito parcial e inconcluso, como é normal, ao se tratar de artigos jornalísticos.

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