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A figura do/a intelectual (2)

27/10/2011

Enfrentar a vigência, validez e potencial da figura do/a intelectual, do/a intelectual de esquerdas, num tempo de mudança como o presente situa o debate numha certa instabilidade que empurra cara à cautela na análise. Podem-se estabelecer com todo uns pontos de amarre mui singelos para umha crítica radical do modelo:

– Primeiro, o mundo nom é o mesmo, o mercado da literatura e o pensamento nom é o mesmo, as condiçons nas que os/as ‘intelectuais’ podem exercer nom som as mesmas que quando boa parte da esquerda se fascinou com a possibilidade de intervir no espetáculo de massas que é a ‘opiniom pública’. Com um mercado mui submetido a dinâmicas publicitárias -entendendo nestas desde as campanhas de promoçom ao papel da crítica na imprensa- a possibilidade de falar sem cancelas nom é já tanta. Semelha difícil hoje tornar compatível a profissionalizaçom no trabalho intelectual com o compromisso, ou quando menos com um compromisso com as luitas emancipatórias mais radicais.

– Segundo, é já um facto a desconsideraçom em boa parte da esquerda e da sociedade em geral cara a aquelas figuras que poderíamos chamar de ‘intelectuais de esquerda’. Décadas de “pasteleo” com as instituiçons do estado burguês, com o empresariado do setor e com a socialdemocracia tenhem danado um modelo de intervençom que, amais, já semelhava fundamente elitista. A separaçom da intelectualidade com as pessoas às que devera dirigir-se é hoje mais evidente -e mais grande- do que há umhas décadas, devida dumha banda à autonomizaçom do campo do pensamento -cada vez menos ‘dependente’ da realidade- e doutra a essa identificaçom no conhecimento popular “intelectuais-poder”, nom isenta de responsabilidade por parte de quem creu que dous (um, três,…) manifestos anuais salvaguardam o seu compromisso ético.

– Terceiro, e falando mui ao direito, cumpre pôr em dúvida que, num futuro em que o compromisso real com a comunidade se tenha que demostrar com a cooperaçom pola simples supervivência material, vaia ter muita relevância coletiva de lado do trabalho de quem colabora na horta do bairro ou na construçom de vivendas em mao comum o facto de alguém que se tenha especializado na produçom imaterial andar a sentar cátedra desde um gabinete ou umha coluna jornalística.

Com estes vimes, nom semelha que as canles para o pensamento crítico nos tempos que venhem vaiam passar pola defesa, a recuperaçom ou a posta em valor de novos/as intelectuais. Por contra, é urgente a experimentaçom para devolver à ‘cousa intelectual’ a vocaçom de serviço ao comúm e a capacidade de interpelar a quem pretende constituir como sujeito da acçom emancipadora.
Diante da cissom entre as luitas sociais e o pensamento especializado e separado ao que tendem intelectuais e academias, começam a se configurar espaços e fórmulas para a construçom e divulgaçom de conhecimentos críticos. Som projetos editoriais que rompem com a lógica do benefício económico ou a autoria individual, projetos audiovisuais que no espaço entre o cinema militante e a reportagem contrainformativa documentam e comunicam as luitas populares, grupos de estudo e debate, … que cumpre continuar a sacar do ‘gueto’. Com todo por fazer, talvez seja tempo de deixar de se preocupar pola derrota na luita por umha ‘opiniom pública’ que se joga nos mercados e com as formas espetaculares do estado que se procura derrubar, e dedicar as forças a rastrear as pegadas do espaço comunitário onde fiquem, para ali intervir e o alargar.

Xoán R. Sampedro

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